Não importa em qual futuro

“Não importa em qual futuro você vai viver. Ele terá tecnologias”!

 

. Por Salustiano Fagundes

 

É interessante como algumas imagens aparentemente sem importância se instalam na nossa memória e deixam uma marca indelével. Nos meados da década de 1980 os microcomputadores começaram a fazer parte da minha vida e eu já era um ávido consumidor das publicações que surgiam aos poucos no país sobre esse tema. Naquela época (poxa, estou ficando velho...) não tínhamos as facilidades da internet e ler revistas especializadas ou cadernos de informática como os do Globo e da Folha de São Paulo, era a melhor forma de se manter atualizado sobre as tendências e os lançamentos do nascente mercado de computadores pessoais no Brasil.

Certo dia folheando uma revista PC Mundo encontrei um anúncio de uma empresa brasileira com o seguinte cenário: em uma metade da página víamos o que certamente era uma cidade tecnologicamente avançada, ficava suspensa e estava coberta por uma redoma de vidro, no melhor estilo do seriado “Os Jetsons” (definitivamente, estou ficando velho!). A paisagem ao seu redor era muito agradável, com árvores, grama e um céu azul ensolarado. Na outra metade da página a mesma cidade podia ser vista, porém, a paisagem era outra. Havia um céu negro, esfumaçado e ameaçador, como em uma daquelas cenas pós-apocalípticas de devastação que nos acostumamos a ver em filmes como o “Exterminador do Futuro” ou “Matrix”. A frase que fechava (ou abria) o anúncio era igualmente impactante. Em resumo ela dizia: “Não importa em qual futuro você vai viver. Ele terá tecnologias”!

A ideia central de que todo o conhecimento e conquistas científicas e tecnológicas vão estar conosco, independente do uso que vamos fazer delas, continua atual. O Projeto Manhattan, que reuniu alguns dos mais brilhantes pesquisadores para o desenvolvimento das primeiras bombas atômicas durante a segunda guerra mundial, certamente ilustra muito bem o misto de encantamento e de perigo que a tecnologia é capaz de nos trazer. A importância da tecnologia como elemento que agrega valor a bens e serviços, tornando-se chave para a competitividade estratégica e para o desenvolvimento social e econômico, é inquestionável.  Mas existe de fato um progresso na adoção de uma tecnologia se não considerarmos o seu impacto para um real progresso humano?  

O surgimento e a massificação da internet afetaram profundamente as nossas vidas nas últimas décadas. Dizer que nunca antes na história da humanidade tivemos acesso tão rápido a tanta informação, tornou-se um clichê. Estima-se que cerca de 4,66 bilhões de páginas existiam na internet no início de 2016, isso sem considerar o que está na Deep Web. A web está entrando na era do Zettabyte (isso é 1.000.000.000.000.000.000.000 de bytes) e são esperados um crescimento 2 Zettabytes por ano a partir de 2019. A cada minuto: cerca de 300 mil pessoas acessam o Face book, 2 milhões de buscas são registradas no Google, 100 mil novas mensagens são postadas no Twitter e 1,3 mil novos usuários começam a acessar a internet em plataformas mobile. A sociedade humana está cada vez mais conectada e consegue também expor e visualizar mais rapidamente todas as suas virtudes e misérias.

Sempre tive um olhar idealista, quase romântico, sobre o papel transformador que as tecnologias podem ter no mundo. Esse é um legado que vem dos quadrinhos, filmes e séries de TVs que fizeram parte da minha infância, repleta de super-heróis e viagens no espaço (e muitas vezes também no tempo, que eram as minhas preferidas!). Júlio Verne dizia que "tudo o que um homem pode imaginar, outros homens poderão realizar", estabelecendo uma linha às vezes tênue, mas definitivamente necessária entre a imaginação, o conhecimento e a tecnologia.

Da mesma forma que a imaginação de Júlio Verne estimulou a invenção do século 20 em clássicos como “Viagem a Lua” e “20.000 Léguas Submarinas”, escritores como Arthur Clark, Isaac Asimov, Robert Heinlein e Philip Dick nos prepararam para as maravilhas e horrores do século seguinte. Pensando bem, estava tudo lá: a inteligência artificial, as experiências de manipulação genética, a realidade virtual, as armas de destruição em massa e até mesmo as sociedades totalitárias controladas por tiranos tecnológicos. Aprendi que o futuro nasce primeiro na imaginação. Antes de ser padronizado, testado e empacotado para consumo, ele precisa passar por um processo imaginativo quase tátil e nesse ato existe um momento de grande beleza criativa que às vezes é simplesmente atropelado pela pressa.

Em um artigo escrito por volta de 1975, o jornalista e escritor Jacques Bergier defendia que a humanidade estava prestes a vivenciar uma nova Renascença, um período de grande florescimento cultural e científico. Os sinais, segundo ele, podiam ser vistos muito claramente nas tecnologias que estavam ao nosso redor. Astronautas eram os novos navegadores, explorando o espaço em busca de “terras” desconhecidas, as telecomunicações encurtariam ainda mais as distâncias e ultrapassariam fronteiras aproximando as pessoas, os computadores nos ajudariam a resolver problemas e desafios complexos e surgiriam novos Gutenbergs, inventando os meios pelos quais conhecimentos e ideias circulariam rapidamente em escala global. Embora entusiasmado com essa visão, eu me questionava se isso não era fruto de um otimismo exagerado do autor, criando uma névoa que escondia todas as desigualdades e barbáries praticadas diariamente pela nossa avançada civilização.

Porém, historicamente períodos de Renascença sempre aconteceram gradualmente. No mundo antigo foram necessários 3 séculos para que pensadores como Sócrates, Pitágoras, Platão e Aristóteles estabelecessem as bases que ainda sustentam o pensamento ocidental. Mais recentemente, o Renascimento na Europa também ocorreu de forma gradual entre os séculos XIV e XVII. Na prática, os ecos da Idade das Trevas ainda podiam ser escutados enquanto as primeiras Bíblias eram impressas e Michelangelo pintava o interior da Capela Sistina. Em nenhum desses momentos em que os grandes saltos civilizatórios aconteceram houve ausência de guerras e conflitos.

Somos seres complexos, multifacetados, contraditórios e em processo de construção.  

Então penso que é possível de fato estarmos vivendo uma nova Renascença e, semelhante ao que Bergier fez na sua época, devemos estar atentos aos sinais que aí estão. E se conseguirmos enxergar mais longe - para além dessa disputa vertiginosa por conhecimento, inovação e poder - que existem as condições necessárias para criarmos uma visão mais humanista, inspiradora e generosa do mundo, teremos, finalmente, a certeza de que uma grande transformação está a caminho.

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Matando o Mensageiro

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O Judiciário brasileiro vem demonstrando cada vez mais o seu anacronismo e distanciamento em relação à realidade. Para o judiciário brasileiro a matemática, a tecnologia e a ciência devem seguir os seus ditames e convicções e não o contrário. 

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